domingo, 20 de maio de 2012

O Universo e a Mente



"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele." 
(João 1:1-3)


Introdução
Vivemos no universo físico, ou material. Um objeto de matéria sofre influência de outros objetos de mesma natureza. Por outro lado, acredita-se que temos uma alma, algo que guarda nossa essência pessoal, que sobrevive e antecede a vida do corpo que ora “habitamos”.
Uma pergunta natural desta situação é: como algo não físico interage e “domina” algo que é físico?

 A informação como base da existência
A citação que abre este texto nos é apresentada pelo apóstolo João. O Verbo, no sentido de “palavra oralmente expressa”, indica que a criação vem à existência de forma análoga a que expressamos nossos pensamentos (na maioria das vezes) a outras pessoas.
A palavra é a (ou uma forma de) portabilidade (ou de um conjunto) de informações. Além disso, dito de forma simplificada, para que seja estabelecida uma efetiva comunicação entre duas pessoas é necessário que a mensagem seja percebida e compreendida.
Podemos, então, afirmar que, no ponto de vista apresentado pelo apóstolo João, nosso universo é produto da expressão inteligente do Criador, a qual é, a nós, inteligível. A informação do Verbo de Deus molda e define a criação, bem como a nós na mesma. É a informação, a qualidade desta e nossa compreensão, que permite que diferenciemos tudo: água de madeira, ar de luz, passado de futuro, etc. Em consequência direta, essa informação, o Verbo, é que possibilita e dá existência à criação.

A mente que dirige o universo
Há muitas representações de Deus nas culturas que cercam o mundo. Contudo, parece-me que as representações físicas do Criador são pobres para captar a grandiosidade infinita. Todavia, em Gênesis, acha-se uma dica: o homem é a imagem e semelhança de Deus.
Alguns podem dar uma interpretação física para essa citação (um velho de longa e vistosa barba branca, por exemplo), mas eu prefiro outra analogia: a mente humana. Na Terra, biologicamente abordando, não somos a forma de vida mais forte, ou a mais resistente. No entanto, somos aquela dominante no planeta. Poucos discordariam que a grande vantagem que temos sobre outras formas de vida conhecidas e nossa capacidade mental, nossa inteligência. É nosso grande diferencial.
A maneira que cada um de nós pensa e, fruto disto, age é que nos caracteriza de forma indiscutível. Por certo, a aparência, o corpo, também é um forte identificador. Mas, todavia, dois gêmeos idênticos podem ser reconhecidos por atitudes diferentes, características de mentes distintas e particulares.
Ao se assumir (ao menos em parte) a formulação proposta pelo professor Amit Goswami sobre como a mente cria todo nosso universo e, ainda, que partilhamos de uma só consciência, como explicar a diferenciação mental particular que caracteriza de forma única todos nós? E, ainda, como uma só mente “induz” nossos cérebros diferentes?

Microcosmo e macrocosmo
A resposta àquela pergunta passa, inicialmente, pela percepção de que o nascimento e a história do nosso universo estão estritamente relacionados aos fenômenos de domínio de estudo da mecânica quântica (bem como da relatividade). A base elementar de tudo que observamos é objeto de estudo desta teoria (ou conjunto de teorias) da física.
Neste contexto, nossas mentes deveriam, em tese, ter uma ligação estreita com tais estudos. Algo aponta nesse sentido? Sim.

Uma possibilidade de entendimento de como isso é possível se dá pelo mecanismo proposto por StuartHameroff e Roger Penrose para o funcionamento da consciência: o cérebro seria um computador quântico. Essa nova perspectiva científica do funcionamento do cérebro pode levar a compreender que a estrutura conformada pelos neurônios que definem nosso sistema nervoso funciona como um “leitor”, a nível subatômico, das informações mais básicas que constituem e definem todo o universo.

Assim, a arquitetura geral das ligações que resultam nas sinapses nervosas particulares a cada um de nós é uma resposta que leva a compreensão da particularidade perceptiva e, em função desta, das ações diversas que tomamos frente aos acontecimentos a que presenciamos. Em outras palavras, as ligações das células nervosas em nossos cérebros seriam com impressões digitais: únicas. Por tal particularidade, a leitura mental realizada pelo cérebro é específica e exclusiva a cada um de nós.

Nosso sistema nervoso central, de forma mais genérica, seria análogo ao seletor de canais de uma televisão que, dentre diversos sinais transmitidos por várias emissoras (pelo ar ou via cabo), captaria com perfeição dadas informações de uma delas. Esse conjunto de informação, em analogia ao canal da televisão, é que chamamos de alma. A “imagem” resultante é o que chamamos de consciência.

É possível, ainda, num exercício livre e mais amplo, entender que esse mecanismo reflete algo que ocorre também em outros planos de existência (quando admitimos a existência desses). Almas (ou corpos) de realidades distintas que induziriam a consciência do corpo que está em uma realidade mais densa imediatamente subsequente.

Seriam como transformadores de voltagem (ligados a uma só usina de energia) que recebem tensão de dada voltagem em um lado e fornecem outra voltagem do outro. Uma particularidade conveniente: determinados efeitos em ambos os circuitos (do lado de alta ou de baixa voltagem) podem apresentar reflexos no circuito oposto.

 

A mente universal e o que tomamos como nossas mentes individuais

Assim, o Verbo que traz a existência e modela a criação é o mesmo que anima a alma e que, em última instância, nos “fala” na mente.

O que está sendo proposto neste texto é o mecanismo pelo qual a alma, suposta não material, induz e controla o cérebro (material). Conceitualmente, está quebrada a barreira entre o que é e o que não é considerado matéria [1].

Assim, de forma análoga a que se modela matematicamente as possibilidades de uma partícula subatômica (um elétron se deslocando, por exemplo), ou, ainda, todo o universo por meio de uma função de onda probabilística, nosso cérebro, no contexto apresentado, também teria todas suas possibilidades descritas matematicamente nos moldes da citada função de onda.

Todavia, retornando a proposta de Amit Goswami, a função de onda pode ser interpretada como a manifestação, o efeito perceptível, da modelagem imposta pela mente única ao universo. Em outras palavras, nossa consciência seria modelada matematicamente (assim como, em tese, todo o universo ou uma simples partícula). Essa modelagem é, em última instância, a manifestação física da mente que define a criação: nossas consciências, portanto, seriam (descritas por) funções que, uma vez somadas, compõem aquela que permite a manifestação do universo [2].

Do exposto, nossas consciências e cada ínfima partícula que existe neste universo tem a mesma origem: são conformadas de maneira análoga. Assim, a questão apresentada na introdução deste texto “como algo não físico interage e domina algo que é físico?” é respondida por: o universo físico é um efeito, uma leitura, de informações que só fazem sentido a luz de uma única mente que o modela e o constrói, bem como permite ser partilhada (em parte) por criaturas que existem em tal criação. Note que há uma interdependência da manifestação (parcial) da mente pelo cérebro (ou pelo corpo, de forma geral) com a própria existência do mesmo enquanto matéria.

Essa é uma proposta em que a mente forma o universo e, nele, a matéria. É o oposto ao que se propõe em termos canônicos acadêmicos, de que a mente é fruto de um epifenômenos do cérebro.


Por fim, da conclusão apresentada, seria justo perguntar se há pesquisas que indiquem que a mente independe do cérebro. Proponho que seja verificado uma publicação feita na revista The Lancet, em 2001, dos pesquisadores Pim van Lommel, Ruud van Wees, Vincent Meyers, Ingrid Elfferich, cuja o título é Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands.

 

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[1] Lembre-se: a molécula (feita de átomos), último “refúgio” que guarda a propriedade do material que a mesma compõe, tem muito mais espaço vazio do que componentes elementares (como prótons, elétrons e nêutrons). Essa observação também serve para átomos. Perceber, por exemplo, uma pedra como um sólido é uma característica emergente da mesma (mesmo uma estrela bem maior que o sol pode ter todo seu material, se suprimido o espaço entre seus componentes subatômicos, condensado e confinado em um ponto, uma escala dita “infinitesimal”; obviamente, não se está falando do raio do horizonte de eventos. Ver estudos sobre buracos negros).

 

[2] Note que isso não significa que a mente que dirige a criação é a mera soma das mentes menores (nossas), ou dependa delas, mas que nossas consciências (individuais) são simples componentes da mente que rege a criação: cada existência só é possível em um contexto amplo que esteja, obrigatoriamente, em conformidade com a mente única e seu planejamento para a criação.

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