sábado, 15 de junho de 2013

Newton, a cabala e a física

Os trechos abaixo integram a dissertação de mestrado (em história da ciência - 2003) de Thaís Cyrino de Mello Forato, cujo o título é "O Método Newtoniano para a Interpretação das Profecias Bíblicas de João e Daniel na Obras: Observations Upon The Prophecies of Daniel and The Apocalypse of St John". Obviamente, por se tratar de extratos, os contexto em que estão na dissertação são perdidos, mas fica a indicação do original para eventual consulta do leitor.

O que quero evidenciar aqui é a influência do misticismo, sobretudo da cabala, na concepção de Newton sobre o universo e, em particular, sobre o seu legado para a física (clássica).


Resumo
As perquirições de Newton acerca da prisca sapientia, cabala, alquimia e teologia, além de sua conhecida produção em filosofia natural, demonstram preocupações pertinentes ao período. Elas evidenciam sua crença no estudo indissociável da religião e da natureza.

Especificamente no caso de seus estudos sobre teologia e religião que se estenderam ao longo de toda sua vida, pode-se verificar que dedicou especial interesse à interpretação das profecias bíblicas, cujo método de análise é focado no presente trabalho. 

Newton não só lançou mão dos principais recursos de sua época, como os requintou, aplicando, de modo singular, o cabedal de conhecimentos nos diversos campos do saber nos quais era versado.

Trechos da dissertação
O estudo apresentado por Brian Copenhaver [70] analisa desde o surgimento da cabala, relacionado ao enfoque dado pela versão judaica da criação do mundo, sua estruturação ao longo do tempo, até a utilização dos seus conceitos pelos filósofos renascentistas, para compará-los aos de Newton.

Segundo ele, os antigos Rabis introduziram na tradição judaica a especulação teológica da relação entre Deus e o espaço, devido inicialmente à presença da palavra hebraica MAKOM (lugar) na literatura bíblica [71].

(...)
Copenhaver nos explica, detalhadamente, o quê escreveram, quando,  onde, sobre quais fundamentados, e quem são “aqueles antigos”, faz uma descrição histórica da “filosofia mística”, enfocando a cabala, e relaciona o significado do espaço absoluto definido por Newton à palavra judaica Lugar/MAKOM.

Embora Copenhaver não tenha mencionado especificamente essa comparação é interessante notar como Newton modificou um trecho contido em um desses manuscritos, ao transcrevê-lo nos Principia:


“Pois dois planetas separados entre si por uma longa distância que está vazia não se atraem mutuamente por qualquer força de gravidade, nem atuam um sobre o outro de modo nenhum, exceto pela mediação de algum princípio ativo que interceda entre eles, pelo qual a força é transmitida de um para o outro. E assim aqueles Antigos que compreenderam corretamente a filosofia mística ensinaram ue um certo espírito infinito permeia todo o espaço e contém e vivifica o mundo universal; [...] nele nós vivemos e nos movemos e somos. Portanto o Deus onipresente é reconhecido e chamado pelos judeus de ‘Lugar’. [...] Por este símbolo os filósofos ensinaram que a matéria é movida naquele espírito infinito e é influenciada por ele, não de um modo irregular, mas harmonicamente e de acordo com as razões harmônicas como eu expliquei".[75]

 (...)



       Em     todo      escólio     geral      Newton       aborda      o     mesmo       aspecto, exemplificando e detalhando suas idéias, permitindo aos estudiosos da cabala identificarem a presença desta filosofia, fundamentando o pensamento newtoniano, apesar da modificação feita por ele:


“Os seis planetas primários são revolucionados ao redor do Sol em círculos concêntricos ao Sol, [...] mas não se pode conceber que meras causas mecânicas poderiam dar origem a tantos movimentos regulares, [...]. Este mais lindo sistema solar, planetas, cometas, poderiam apenas proceder do conselho e domínio de um Ser inteligente e poderoso. [...] devem estar todos sujeitos ao domínio de Alguém; [...]. Esse Ser governa todas as coisas. [...] Ele é onipresente não apenas virtualmente, mas substancialmente, pois a virtude não pode existir sem substância. Nele todas as coisas são contidas e movidas; todavia nenhuma afeta a outra [...]. Até aqui temos explicado o fenômeno dos céus e do nosso mar pelo poder da gravidade, mas ainda não tínhamos explicado a causa desse poder. É certo essa dever provir de uma causa que penetra o exato centro do Sol e dos planetas, sem sofrer a menor diminuição de sua força; [...] e propagar sua virtude em todos os lados a imensas distâncias, decrescendo sempre com o inverso do quadrado da distância”.[76]

Apresentamos alguns trechos do trabalho de Copenhaver, que defende a participação da cabala nas origens da ciência moderna. Sob essa óptica, podemos entender que ela possibilitou a Newton desenvolver sua teoria da gravitação universal, não apenas porque estivesse matematizando o “funcionamento” de fenômenos naturais e ignorando suas causas, mas por ter usado o conceito de MAKOM como o sensório de Deus e o espaço absoluto, que ele discute nos Principia, tornando dessa forma possível conceber forças agindo à distância, diferentemente de outras explicações para a gravidade, como por exemplo, a teoria cartesiana presente na época.



Vemos essa mesma idéia no trabalho de J. L. Goldfarb, em um estudo sobre o trabalho de Copenhaver, concordando com suas conclusões e defendendo que foi graças ao conceito cabalístico de lugar, fornecendo a possibilidade de ações à distância, que Newton pôde formular seu sistema de mundo:

“Contra Descartes e outros pensadores que queriam ver Deus fora da res extensa, Newton aproxima-se de corrente intelectual que tinha na Cabala um posicionamento mais penetrante sobre o espaço ou o lugar, aproximando esta noção de algo como um canal de comunicação entre as esferas cifradas da realidade. Um espaço ou lugar animado. Nas palavras de Isaac Newton, o sensório de Deus. A cabala fornecia o espaço ou lugar que fosse simultaneamente base e sustento para o mundo físico e também realidade invisível acessível intelectualmente à mente humana." [77] 


As conclusões de Rattansi, Copenhaver e J. Goldfarb sinalizam um ponto comum: quer tenha sido a cabala, quer tenham sido outras abordagens também presentes no platonismo de Cambridge, foram as idéias trazidas pela tradição renascentista já em declínio no continente, mas revividas na Inglaterra do XVII, as responsáveis pela formulação da doutrina Newtoniana.



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70 B. Copenhaver, “Jewish Theologies of Space…”.

71 Veja em J. L. Goldfarb, “Ciência e Magia: Algumas Considerações sobre o Conceito de
Espaço” in J. L. Goldfarb, coord., VI Seminário Nacional da Ciência e da Tecnologia.

75 I. Newton, manuscrito Cul, Add. 3965.6, f.269; apud Westfall, Never at rest, pp. 510-1.

76 I. Newton, Mathematical Principles..., pp. 369-72.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Física e a Realidade

Uma excelente palestra do Dr Raphael de Paola, sobre "Física e a Realidade". O palestrante é doutor em física pela CBPF.




sexta-feira, 24 de maio de 2013

Citações


Posto a aqui uma citação do professor Marlanfe Tavares de Oliveira que expressa, de forma clara, concisa e precisa o que penso da relação da crença (em Deus) e ciência. Note que, no trecho abaixo, fé é assumida como pura crença.

“A Religião NÃO DEVE entorpecer o homem. A Inteligência somente pode crer no que é razoável: nem no absurdo, nem crença cega. Deus, que deu a Inteligência ao homem, não pode querer que ele abra mão deste instrumento do pensamento para aceitar cegamente o que outrem diz. Daí: A FÉ DEVE SER RAZOÁVEL. Isto significa que o que eu creio não pode ser absurdo, contrário à minha razão, e sim explicado e justificado por ela. A FÉ DEVE SER UM ATO LIVRE. Quer isto dizer que ninguém pode impor sua Fé a outrem. O principal apanágio do homem é a Liberdade e Deus não precisa suprimir a Liberdade Humana para se fazer conhecido, amado e servido. A FÉ DEVE AJUDAR A REALIZAR O HOMEM COMO PESSOA. Já que Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança,  não poderia a Fé desfazer essa semelhança com Deus, mas reforçá-la até levá-la à condição de Imagem”. 


Em seguida, algumas (belíssimas) declarações de cientistas que tomei a liberdade de transcrever usando um site como fonte. Que não tomem que afirmo aqui que a declaração de um cientista equivale a seu trabalho de pesquisa, mas que, os que aqui apresento, conhecendo a ciência, concluem pela existência de Deus.

"Religião e ciência natural combatem unidos numa batalha incessante contra o ceticismo e o dogmatismo, contra a descrença e a superstição. E a palavra de ordem nesta luta sempre foi e para todo sempre será: em direção a Deus!" Max Planck (1858-1947), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1919.

"A prova mais imediata da compatibilidade entre religião e ciência natural, mesmo sob análise detalhada e crítica, é o fato histórico de que justamente os maiores cientistas de todos os tempos, homens como Kepler, Newton, Leibniz, estavam imbuídos de profunda religiosidade." Max Planck (1858-1947), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1919.

"O primeiro gole do copo das ciências naturais torna ateu; mas no fundo do copo Deus aguarda." Werner Heisenberg (1901-1976), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1932.

"Natureza definitivamente não pode ser discutida de modo completo em termos científicos sem incluir também a indagação por Deus." Walter Heinrich Heitler (1904-1981), físico, recebedor da Medalha Max Planck de 1968.

"Não tenho razão para ver uma discordância entre aquilo, que sei como cientista que passa o dia inteiro estudando o genoma humano, e aquilo, que creio como alguém que presta muita atenção ao que a Bíblia me ensinou sobre Deus e sobre Jesus Cristo. ... A noção de que você deve escolher entre um e outro é um mito terrível que tem sido proposto, e que muitas pessoas têm aceito sem real oportunidade de examinar a evidência." Francis Sellers Collins (1950- ), geneticista, ex-diretor do Projeto Genoma Humano.